quinta-feira, 12 de junho de 2008

King Abdullah Economic City (KAEC)

Governo saudita constrói megacidade no deserto

O governo da Arábia Saudita está construindo uma cidade no deserto que terá capacidade para acomodar dois milhões de pessoas e gerar um milhão de empregos.

A Cidade Econômica King Abdullah, que ganhou o nome inspirado no rei saudita, é a peça central de outros cinco projetos que estão sendo desenvolvidos pelo governo saudita, com conclusão prevista para 2020.
A nova cidade, erguida sobre as areias do deserto da Arábia a 100 quilômetros ao norte da cidade de Jidá, ocupará uma área de 388 quilômetros quadrados.

"A cidade está sendo construída em proporções nunca vistas anteriormente em nenhum lugar do mundo e será do tamanho de Washington em 15 anos", diz Fahd al-Rasheed, presidente da Emaar, empresa que está desenvolvendo o projeto.

"(A Cidade Econômica) terá um dos maiores portos do mundo, uma área para escolas outra para resorts", diz ele.

Petróleo
Com o anúncio da construção da cidade, o governo mostra que quer investir no futuro de forma mais sensata, prevendo grandes desafios, como a necessidade de diversificar a economia e de gerar mais empregos para atender uma população majoritariamente jovem (40% dos sauditas têm menos de 15 anos).

A Cidade Econômica vai abrigar um gigantesco complexo industrial, previsto para a produção de alumínio, aço, fertilizantes e petroquímicos.

"Estamos falando em estabelecer uma estrutura industrial para as gerações futuras", disse Saad al-Dosari, presidente da Companhia de Refinaria e Petroquímica Rabigh.

Com o preço do petróleo nas alturas, o governo da Arábia Saudita está prevendo o futuro em um cenário onde a commodity poderá ser escassa.

Os lucros que o país arrecada com a venda do petróleo são enormes - mais de 11 milhões de barris são produzidos por dia, gerando mais de US$ 1 bilhão.

Na última vez que o petróleo registrou valorização semelhante, os sauditas desperdiçaram grandes somas de dinheiro em projetos mal-sucedidos, como a tentativa de transformar o deserto em terras aráveis.

Reformas
Um exército de trabalhadores estrangeiros, em sua maioria do sul da Ásia, está construindo a infra-estrutura que dará sustentação a milhares de casas e prédios comerciais.

A mão-de-obra é mais barata e está disposta a fazer um trabalho que os sauditas se recusam.

Na Arábia Saudita é preciso saber ler nas entrelinhas. Muitos defensores de reformas sugerem que as cidades do futuro terão mais liberdade do que o resto do país.

Mas ainda resta saber se nas novas cidades as mulheres terão permissão para dirigir e circular livremente como nas cidades do Ocidente. Ninguém, incluindo o rei, parece preparado a responder essas perguntas.

Algumas reformas já estão sendo introduzidas, mas em um país com fortes tradições religiosas, o processo será lento e gradual. A Cidade Econômica King Abdullah é provavelmente o carro-chefe dessas mudanças.


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Expansão da Petrobras está apenas começando


Annie Gasnier - Le Monde
Correspondente no Rio de Janeiro

A extensão das reservas de petróleo do Brasil ainda é um mistério, mas a Petrobras não pára de se valorizar. A companhia petroleira nacional brasileira tornou-se a terceira maior empresa das Américas, atrás da Exxon Mobil e da General Electric, e na frente da Microsoft. O seu valor na Bolsa aproxima-se dos US$ 300 bilhões.

Esta valorização está vinculada a uma sucessão de descobertas em alto-mar ("offshore") que vêm impulsionando o gigante sul-americano para o rol dos principais produtores de petróleo, enquanto no mesmo momento os preços do barril alcançaram valores recordes. Além da bacia de Campos, que a Petrobras vem explorando há quarenta anos, a descoberta, em outubro de 2007, na bacia de Santos, da jazida Tupi, que teria uma capacidade da ordem de 5 a 8 bilhões de barris, aumentou para 11,7 bilhões de barris as reservas do Brasil. Mas elas poderiam revelar ser muito mais consideráveis.

O diretor geral da Agência Nacional do Petróleo, Haroldo Lima, anunciou em abril, antes de moderar suas declarações pouco depois, que a jazida Carioca que acabara de ser descoberta poderia representar 33 bilhões de barris. Com isso, o Brasil e consequentemente a companhia nacional Petrobras poderiam estar prestes a administrar as terceiras maiores reservas mundiais.

A 6.000 metros de profundidade

Em 2006, o país já havia alcançado a auto-suficiência, equilibrando produção e consumo em 2,3 milhões de barris por dia. Agora ele está no processo de tornar-se nos próximos anos um grande produtor e exportador. "Mas a exploração dos seus recursos só se justificará se o preço do barril permanecer elevado", sublinha o especialista Roberto Kishinami. Em todo caso, as autoridades já estão se preparando para o seu papel de futura potência petroleira. Elas estão discutindo a repartição dos royalties, equivalentes a 5% e 10% da receita anual, sinalizando a sua vontade de ver a nação como um todo ser beneficiada pelos lucros.

Contudo, em 1997, a Petrobras abriu uma parte do seu capital para acionistas. Atualmente, o governo procura evitar que o país veja "escapulir" uma parte dos lucros que estão por vir, estudando, entre outros, a idéia de fundar uma "Petrobras 2", que seria de propriedade integral do Estado. Por sua vez, o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, preferiria modular contratos e royalties, dependendo das áreas exploradas.

Em todo caso, os recursos recém descobertos estão obrigando a Petrobras a enfrentar novos desafios humanos, financeiros e técnicos. Para a exploração em águas profundas, a Petrobras possui um importante know-how, pois ela já vem extraindo a maior parte do seu petróleo no oceano, a 250 km da orla. Em 2007, a Petrobras conseguiu descer a 2.777 metros abaixo do nível do mar. Mas a jazida Tupi estaria situada a 6.000 metros, debaixo de uma camada de sal de 2.000 metros. Ora, essas são condições de exploração inéditas e arriscadas, para as quais deverão ser necessárias cerca de quarenta sondas. Doze delas já teriam sido encomendadas em esquema de emergência, no exterior, enquanto as outras estão sendo desenvolvidas no Brasil.

Prevendo duplicar a sua frota, a Petrobras empreendeu um programa de modernização que inclui a compra de 146 navios, ou seja, um investimento de US$ 5 bilhões (cerca de R$ 8,2 bilhões) em seis anos. Uma vez que a capacidade dos estaleiros brasileiros continua insuficiente, outros locais de construção estão sendo estudados. O parque de refinarias também precisa aumentar, e três projetos já estão prontos. A Petrobras já empenhou o seu investimento mais consistente em torno do complexo petroquímico de Itaboraí - RJ, o Comperj, a 45 km do Rio de Janeiro: este custará US$ 8,3 bilhões (R$ 13,6 bilhões) até 2012, e envolverá a criação de 170.000 empregos diretos e indiretos.

Trata-se de um futuro promissor, diante do qual José Sergio Gabrielli prefere manter-se ponderado. O presidente da Petrobras teme que essas descobertas "contribuam, por meio de um forte aumento das vendas de petróleo, para a valorização da moeda brasileira, e, com isso, para a redução das exportações, além de um possível processo de desindustrialização do Brasil".